O Diário de Turner

Capítulo XXV



4 de setembro de 1993:  Apesar de eu já estar em Washington há quase uma semana agora, esta é a primeira oportunidade que eu tive para escrever. Depois da nossa desenfreada viagem através do país nós passamos diversos dias bem corridos para plantar duas de nossas bombas. Então, a noite passada foi a primeira noite sem interrupção que eu tive sozinho com Katherine desde que eu voltei. E amanhã haverá mais uma outra missão de plantar bombas. Mas hoje, a noite é para a escrita.

  Nossa viagem da Califórnia até aqui foi como algo de um filme eletrizante de ação. Mesmo que todos os eventos estejam ainda frescos em minha memória, eu mal posso acreditar que aconteceram realmente. As condições neste país mudaram tanto nas últimas nove semanas que é como se nós tivéssemos usado uma máquina do tempo para pisar em uma era inteiramente diferente -- uma era em que todas as velhas regras para as quais nós passamos uma vida inteira aprendendo tivessem sido mudadas. Felizmente, para nós, todos parecem tão desnorteados pelas mudanças quanto nós.

  Eu me surpreendi pela facilidade com que nós pudemos deixar nosso território. As tropas do Sistema estão todas juntas em bloco em apenas em algumas áreas de fronteira ao longo das estradas principais, com grupos adicionais do tamanho de companhias inteiras posicionados em bareiras de tráfego nas estradas secundárias. Estas tropas das estradas secundárias não estão fazendo praticamente nenhuma patrulha, e é uma tarefa simples e segura contorná-las -- o que explica o fato de que tantos voluntários Brancos puderam infiltrarem-se em nossa área da Califórnia desde 4 de julho.

  Nós tomamos um caminhão do exército ao norte de Bakersfield e dirigimos então para o nordeste outras 20 milhas, para dentro de meia-milha de uma barreira de estrada administrada por tropas Negras. Nós podíamos vê-los e  eles podiam nos ver, mas não tentaram nos dar nenhum problema quando nós pulamos fora da estrada principal para uma estrada de terra do Serviço Florestal. Nós estávamos já no início da cordilheira Sierra Range.

  Após passar cerca de uma hora nos sacudindo sobre a estrada íngreme praticamente intransponível da montanha, nós voltamos para a estrada principal outra vez -- seguramente além da barreira da estrada mas agora profundamente em território controlado pelo Sistema. Nós não estávamos especialmente preocupados sobre encontrar qualquer oposição nas montanhas; nós sabíamos que a maior concentração de tropas do Sistema estava em China Lake, no outro lado das Sierras, e nós pretendíamos desviar para o norte, ao longo da estrada 395 antes disso. Nosso plano, se tivessémos encontrado com um caminhão de suprimentos para a barreira de estrada que tínhamos contornado, perto de Bakersfield, era simplesmente explodi-lo fora da estrada da montanha antes que seus ocupantes percebessem que nós éramos "o inimigo".Todos nós cinco mantivemos nossos rifles automáticos armados e prontos, e nós tínhamos dois lançadores de foguetes também, mas nós não encontramos com nenhum outro veículo.
 
  Nós soubemos que, apesar da ausência incomum do tráfego nas montanhas, nós encontraríamos certamente o tráfego pesado quando nós alcançássemos a 395, a estrada norte-sul principal, à leste das montanhas. Nossas patrulhas de reconhecimento não tinham podido dar-nos qualquer informação além de um retrato muito generalizado das disposições de tropas mais para o leste, e nós não tínhamos nenhuma idéia do que esperar no caminho sobre barreiras de estrada ou outros controles de tráfego de veículos.

  Mas nós sabíamos que menos de 10 por cento das tropas do Sistema na área da fronteira neste momento eram Brancos, entretanto. O Sistema estava gradualmente recobrando a confiança em algumas de suas tropas Brancas, mas estava evitando ainda usá-las perto da fronteira, onde poderiam ser tentadas a vir para o nosso lado. Os poucos militares Brancos na área, mesmo que confirmados apoiadores da mistura-de-raça , foram considerados com suspeita e tratado com o desrespeito e desprezo que mereciam pelos Pretos. Nossos espiões tinham relatado diversos exemplos em que estes renegados Brancos tinham sido humilhados e abusados por seus próprios soldados subalternos Pretos

  Considerando isso, nós tínhamos decidido que nós teríamos uma melhor chance, nos disfarçando de Não-Brancos, de blefar nossa fuga por quaisquer opositores. Dessa forma, nós todos tínhamos aplicado graxa escura em nossas faces e mãos e fixamos sotaques que soavam Chicanos em nossos uniformes fatigados. Nós imaginamos que poderíamos nos passar por mestiços -- por tanto tempo enquanto nós não encontrássemos verdadeiros Chicanos. Por quatro dias eu fui "Jesus Garcia".

  Nosso motorista, "Cabo Rodriguez" atuou em seu papel à risca, dando uma saudação com a mão esquerda de punho-fechado e mostrando um sorriso cheio de dentes sempre que nós passávamos por um grupo ocioso de soldados pretos ao longo da estrada e nas duas ocasiões em que nós fomos parados em pontos de verificação. Nós mantivemos também um rádio portátil ajustado a uma estação Mexicana que ressoava bem alto música Chicana sempre que nós estávamos dentro do alcance de audição das tropas do Sistema.

  Uma vez, quando tivemos que reabastecer, nós ficamos momentaneamente tentados a entrar dentro de um depósito militar de gasolina, mas a longa fila de caminhões à espera e os grupos de pretos que vadiavam por perto, fez com que decidíssemos não correr o risco. Nós paramos em um posto de reabastecimento com uma lojinha e um restaurante de beira de estrada, à sombra do Monte Whitney. O lugar parecia deserto, e assim dois de nossos homens começaram a encher nosso tanque de combustível na bomba da gasolina, enquanto eu e os outros nos dirigimos para o restaurante para ver se nós poderíamos encontrar algum alimento para comer ou guardar.

  Nós encontramos quatro soldados lá dentro, completamente bêbados, sentados em torno de um balcão repleto de garrafas vazias e copos. Três eram pretos e o outro era branco. "tem alguém aí que para quem nós possamos pagar pela gasolina e por alguma comida? ", eu perguntei.

  "Não, cara, pode catar o que você quiser. Nós expulsamos os proprietários branquelos pra fora daqui três dias atrás, " um dos pretos respondeu.

  " Mas não antes de termos nos divertido pra valer com a filha deles, hehe.. " o Branco disse, sorrindo e ao mesmo tempo cutucando um dos companheiros dele.

  Talvez tenha sido o olhar sombrio que eu lhe dei, ou talvez ele subitamente tenha notado os olhos muito azuis de "Cabo Rodriguez", ou -- pode ter sido que a graxa em nossos rostos tivesse se tornado muito borrada pela transpiração; em todo caso, o soldado Branco deixou de sorrir de repente e sussurrou algo no ouvido dos Pretos. Ao mesmo tempo ele virou de costas para tentar alcançar seu rifle que estava em cima de uma mesa ao lado.

  Antes que ele sequer tocasse em sua arma, eu girei meu M16 no meu ombro e "limpei" o grupo à mesa com uma rajada de fogo que lhes espalhou pelo chão, espirrando sangue. Os três Pretos estavam obviamente bem mortos, mas o companheiro Branco-renegado deles, com um tiro no peito, se levantou numa posição para sentar e perguntou em uma voz lamentosa, " Ei cara, que merda é essa?."

  Cabo Rodriguez acabou com ele na mesma hora. Ele tirou a baioneta de seu cinto, agarrou o Branco agonizante pelo cabelo, e o puxou pelo chão afora, e colocou a baioneta escostada debaixo do queixo dele. "Seu pedaço imundo de misturador-de-raça ! Vá se unir a seus 'irmãos Pretos' !" E com um golpe selvagem "Rodriguez" praticamente o decapitou.

  Cinco milhas a frente na rodovia, na intersecção onde nós queríamos virar a leste, um jipe da Polícia Militar do exército com dois Pretos dentro estava bloqueando a estrada lateral. Um terceiro Preto estava controlando o tráfego, direcionando todos os o veículos militares que iam para o norte para irem em direção à rodovia principal. Nós ignoramos seus sinais e viramos à direita, fazendo uma curva tão fechada quanto pudemos, para não passar perto do jipe. O controlador de tráfego Preto assoprou o apito dele furiosamente, e todos os três policiais militares gesticularam e acenaram seus braços de modo furioso pra nós, mas nosso "Cabo Rodriguez" sorriu e fez a saudação black power, e gritou,  "Siesta frijole! Hasta la vista!" e algumas outras palavras em espanhol que vieram em sua mente, seguindo a estrada à frente, e pisando no acelerador. Nós deixamos os Pretos em uma nuvem de pó e pedregulhos.

  O Preto com o apito ainda estava tocando e acenando os braços dele quando nós passamos a curva, e isso foi a última coisa que vimos dele. Aparentemente ele e seus companheiros não acharam que valia a pena nos seguir, mas nossos três homens escondidos na parte de trás do caminhão mantiveram os dedos nos gatilhos de seus rifles automáticos, só por via das dúvidas.

  De lá até que nós estivéssemos nos subúrbios de St. Louis, nós não passamos por mais nenhuma concentração de tropas do Sistema.  Mas nós conseguimos isso somente evitando as rodovias e cidades principais e usando estradas secundárias. Nós chacoalhamos e sacudimos pelas montanhas e desertos da Califórnia, Nevada, Utah e Colorado, e então pelas planícies do Kansas e pelas colinas de Missouri, por 75 horas a fio, parando apenas para reabastecer e nos aliviar. Enquanto dois de nós viajávamos na frente e um terceiro mantinha a atenção na traseira do caminhão, dois de nós tentávamos dormir, mas sem muito sucesso.
 
  Quando nós atingimos o leste do Missouri nós mudamos nossas táticas, por duas razões. Primeiro, nós ouvimos as notícias no rádio dos ataques em Miami e Charleston, e o ultimato da Organização para o Sistema. Isso fez com que o fator tempo fosse mais importante ainda do que antes; nós não poderíamos permitir mais nenhuma demora devido à rotas alternativas ao longo de estradas secundárias. Em segundo, o perigo de nós sermos parados pelas autoridades entre St. Louis e Washington descresceu bruscamente a medida que o inferno tomou o país, dando-nos a oportunidade de adotar uma novo itinerário.
 
  Nós temos monitorado tanto as faixas de transmissões civis quanto as faixas de comunicações militares, durante a viagem, e nós estávamos a 80 milhas à oeste de St. Louis quando um anúncio especial cortou o noticiário da previsão do tempo da tarde. No dia anterior, à tarde, uma bomba nuclear tinha sido detonada sem aviso em Miami Beach, o anunciador disse, causando um número estimado de 60.000 mortes e causando enormes danos. Uma segunda bomba nuclear tinha sido detonada fora de Charleston, Carolina do Sul, apenas algumas horas atrás, mas mortes e relatórios de danos não estavam ainda disponíveis.

  Ambas as explosões nucleares foram trabalho da Organização, disse o anunciador, e ele iria agora ler o texto de um ultimato da Organização. Eu tomei nota do ultimato quase palavra por palavra num pedaço de papel a medida que ele foi sendo dito no rádio da caminhonete, e ele é aproximadamente isto:

  "Para o Presidente e o Congresso dos Estados Unidos e os comandantes de todas as Forças Armadas dos Estados Unidos, nós, o Comando Revolucionário da Organização, emitimos as seguintes exigências e advertências:"

  "Primeiro, cessem imediatamente toda preparação de forças militares no Leste da Califórnia e áreas adjacentes e abandonem todos os planos de uma invasão na Zona Liberada da Califórnia."

  "Segundo, abandonem todos os planos de um ataque nuclear contra a zona liberada da Califórnia ou qualquer parte dela."

  "Terceiro, faça ser conhecido do povo dos Estados Unidos, através de todos os canais de comunicação a sua disposição, estas exigências e este aviso."

  "Se vocês falharem em cumprir qualquer uma de nossas três exigências até à tarde de amanhã, 27 de Agosto, nós vamos detonar uma segunda bomba nuclear em algum centro populacional dos Estados Unidos, assim como nós detonamos uma na área de Miami, Flórida, há alguns minutos atrás. Nós vamos continuar a detonar uma bomba nuclear a cada 12 horas em seguida, até que vocês tenham obedecido."
 
  "Além disso, nós avisamos vocês de que se vocês fizerem qualquer movimento hostil de surpresa contra a Zona Liberada da Califórnia, nós vamos imediatamente detonar mais de 500 bombas nucleares que já estão escondidas em áreas-alvo chave através dos Estados Unidos. Mais de 40 dessas bombas estão agora localizadas na área metropolitana de Nova Iorque. E mais, nós vamos imediatamente usar todos os mísseis nucleares ainda à nossa disposição para destruir a presença Judaica na Palestina."

  "Finalmente, nós os advertimos de que, em qualquer evento, nós pretendemos liberar, primeiro, os Estados Unidos inteiro, e depois o resto deste planeta. Quando nós tivemos feito isso, então nós vamos liquidar com todos os inimigos de nosso povo, incluindo em particular todas as pessoas Brancas que tem conscientemente ajudado estes inimigos."
 
  "Nós estamos alertas agora, e nós continuaremos alertas e sabendo, dos seus planos mais confidenciais e de todas as ordens que vocês recebem de seus mestres Judeus. Abandonem sua traição-da-raça agora, ou abandonem toda a esperança para si próprios quando vocês caírem nas mãos do seu próprio povo que vocês tem traído."

  (Nota ao leitor: a versão de Turner do ultimato da Organização é essencialmente correta, exceto por alguns erros menores em ortografia e a sua omissão de uma sentença do penúltimo parágrafo. O texto exato e inteiro do ultimato está no capítulo nove do livro definitivo do Professor Anderson: História da Grande Revolução).
 
  Nós saímos da estrada quando o anunciador especial começou, e nos levou alguns poucos minutos para reunir nossos pensamentos e decidir o que fazer. Nós não tínhamos realmente esperado que as coisas se desenvolvessem tão rapidamente. Esses colegas que levaram as ogivas para Miami e Charleston devem ter partido um dia ou dois à nossa frente, ou eles devem ter realmente queimado os pneus pelas autoestradas para chegar lá tão cedo. Apesar da nossa viagem sem paradas, nós nos sentimos como um bando de incompetentes.

  Nós sabíamos que a coisa estava realmente pegando fogo; nós estávamos no meio de uma guerra civil nuclear, e dentro dos próximos dias o destino do planeta poderia ser decidido para sempre. Agora era ou os Judeus ou a Raça Branca, e cada um sabia que o jogo era pra valer.

  Eu ainda não descobri todos os detalhes de nossa estratégia que levou ao ultimato. Eu não sei porquê, por exemplo, Miami e Charleston foram escolhidas como alvos iniciais -- ainda que eu tenha ouvido um rumor de que os Judeus ricos que evacuaram Nova York estavam sendo temporariamente hospedados na área de Charleston, e Miami, é claro, já tinha uma superabundância de Judeus. Mas porque não destruir a área de Nova York, com seus dois e meio milhões de Judeus ? Talvez porque nossas bombas não estivessem realmente lá em Nova York ainda, apesar do que o nosso ultimato tenha dito.

  E eu também não estou certo porquê nosso ultimato tomou a forma particular que ele teve: todo direto e sem conversa. Talvez porque ele foi deliberadamente feito com a intenção de estourar a boiada -- que realmente conseguiu. Ou talvez tenha havido alguma comunicação por-baixo-da-mesa entre o Comando Revolucionário e os líderes militares do Sistema que determinou o formato do Ultimato. Em qualquer caso, ele teve o efeito de dividir o Sistema bem no meio. Os Judeus e praticamente todos os políticos estão em uma façcão, e praticamente todos os líderes militares estão em outra facção.
 
  A facção Judaica está exigindo a imediata aniquilação nuclear da Califórnia, sem considerar as consequências. Os amaldiçoados goyim (não-judeus) levantaram as suas mãos contra o 'Povo Escolhido' e devem ser destruídos a qualquer custo. A facção militar, por outro lado, é a favor de um descanso temporário, enquanto um esforço é feito para achar as nossas "500 (um exagero perdoável) bombas nucleares" e desarmá-las.

  Depois de ouvir aquela transmissão, nosso único pensamento era entregar nossa carga mortal para Washington o mais rápido possível. Nós sabíamos que todos estariam desequilibrados por um momento como resultado do que tinha acabado de acontecer, e nós decidimos tomar vantagem da confusão geral convertendo nossa caminhonete em um veículo de emergência, e correr direto pela estrada em direção ao nosso destino.
Nós não tínhamos uma sirene, mas nós tínhamos luzes vermelhas na frente e atrás e nós completamos a conversão alguns minutos depois parando em uma loja rural de ferramentas e comprando algumas latas de tinta em spray, com as quais, com alguns estênceis improvisados, feitos de jornais recortados, nós usamos para pintar símbolos da Cruz Vermelha nos lugares apropriados da nossa caminhonete.

  Depois disso, nós chegamos à Washington em menos de 20 horas, apesar das condições caóticas nas rodovias. Nós dirigimos através do acostamento, para passar pelo tráfego engarrafado, dirigimos pelo lado errado da estrada buzinando e com luzes piscando, pulando por cima de valas e campos abertos para nos livrarmos de trechos bloqueados, e geralmente ignorávamos todos as intersecções bloqueadas por controladores de tráfego, enganando-os com nossa aparência em mais de uma dúzia de pontos de inspeção.
 

  Nossa primeira bomba foi para Fort Belvoir, a grande base do Exército logo ao sul de Washington, onde eu estive preso por mais de um ano. Nós tivemos que esperar dois dias desesperadores para fazer contato com nosso camarada lá para que nós pudéssemos colocar a bomba dentro da base e escondê-la no local certo.

  "Rodriguez"  passou pela grade com a bomba amarrada em suas costas. Eu recebi um sinal de rádio dele no dia seguinte, confirmando o cumprimento bem-sucedido da sua missão. Enquanto isso, o resto de nós plantava uma segunda bomba no Distrito de Colúmbia, onde ela seria capaz de vaporizar e mandar pelos ares uns 200 000 Pretos quando ela detonasse, sem contar algumas agências do governo e uma parte crítica da rede de transportes da capital.
 

  Eu não tinha tido minhas ordens definitivas para a terceira bomba antes desta tarde. Aquela vai para dentro da área de Silver Spring, ao norte daqui -- o centro da comunidade Judaica urbana de Maryland. A quarta bomba está reservada para o Pentágono, mas a segurança lá é tão reforçada que eu ainda não imaginei um modo de levá-la a qualquer lugar próximo de lá.

  Eu devo confessar que minha mente não tem estado exclusivamente no meu trabalho desde que eu voltei para cá. Katherine e eu temos gasto tempo de nossas responsabilidades da Organização para estarmos juntos. Nenhum de nós tinha percebido quanto nós significamos um para o outro até que nós fomos separados de novo neste verão , logo depois da minha fuga da prisão. No mês em que estivemos juntos esta primavera, antes que eu fosse mandado para o Texas e então para o Colorado e finalmente para a Califórnia, nós estivemos tão próximos quanto um casal pode estar.

  As coisas tem sido difíceis para Katherine e os outros aqui enquanto eu estive fora, especialmente desde 4 de Julho. Eles tem estado sob enorme pressão vinda de duas direções. A Organização tem pressionado-os sem piedade para continuamente aumentar o seu nível de ativismo, enquanto o perigo de serem pegos pela polícia política tem crescido e piorado a cada semana.

  O Sistema está valendo-se de novos métodos em sua luta contra nós: buscas maciças, de casa em casa, em várias áreas de quarteirões; recompensas astronômicas para informantes; controles muito mais apertados de qualquer movimentação civil. Em muitas outras partes do país essas medidas repressivas tem sido mais esporádicas, e elas tem sido completamente interrompidas nas áreas onde o Sistema não tem sido capaz de manter a ordem pública -- especialmente desde o pânico causado pelas explosões de Miami e Charleston. Mas ao redor de Washington o Sistema ainda tem as coisas sob um controle muito apertado, e ele está bem forte.
 

  Depois desta tarde, Katherine e eu demos uma pequena saída da loja por umas duas horas e fomos passear. Nós passamos por vários grupos de soldados em posições com sacos de areia e metralhadoras, fora de edifícios de escritórios; por uma ruína enegrecida de fumaça de uma estação de metrô suburbana na qual a própria Katherine plantou uma bomba de dinamite a apenas duas semanas atrás; através da área de um parque onde um alto-falante montado no alto de um poste de luz estava gritando exortações a "todos os cidadãos que pensam corretamente" para imediatamente denunciar à polícia política a mais leve manifestação de racismo da parte de seus vizinhos ou colegas de trabalho; E mais adiante, em uma das maiores pontes sobre o Rio Potomac da Virgínia para o Distrito de Colúmbia. Não havia tráfego na ponte porque ela terminava abruptamente 50 jardas da margem da Virgínia, em uma massa de concreto quebrado e cabos metálicos de reforço entortados. A Organização tinha explodido ela em Julho, e nenhum esforço tinha ainda sido feito para repará-la.

  Estava bem calmo lá no final da ponte, com somente os ruídos das sirenes policiais à distância e o barulho ocasional de um helicóptero da polícia passando por cima. Nós conversamos, nós nos abraçamos, e nós silenciosamente observamos a cena a nossa volta enquanto o sol descia. Nós e nossos companheiros temos feito uma grande influência no mundo nos últimos meses -- tanto no mundo suburbano de gente Branca comum no lado da ponte para à Virgínia quanto no mundo do Sistema, de apressados escritórios governamentais do outro lado da ponte. E o Sistema ainda assim está evidentemente tão vivo por toda a nossa volta. Que contraste com a situação na Califórnia!

  Katherine tinha muitas perguntas sobre como a vida é na Zona Liberada, e eu tentei descrever a ela o melhor que eu pude, mas eu temo que meras palavras sejam inadequadas e insuficientes para expressar a diferença entre a maneira que eu me sentia na Califórnia e a maneira que eu me sinto aqui. É mais uma coisa espiritual do que simplesmente a diferença entre ambientes sociais e políticos.
Enquanto nós permanecíamos ali falando, acima das ondas do rio, no final da ponte, nossos corpos presionaram-se juntos,e o mundo escurecendo a nossa volta, um grupo de jovens Pretos vieram através do outro pedaço da ponte, do lado de Washington. Eles começaram a andar balançando, na maneira típica negra, dois deles urinando no rio. Finalmente um deles nos viu, e eles todos começaram a gritar e fazer gestos obscenos. Para mim, ao menos, aquilo acentuou a diferença que eu não podia encontrar palavras para expressar.



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