O Diário de Turner

Capítulo XX



7 de julho de 1993: Parece que eu vou ficar aqui até de manhã, assim eu posso tirar uma hora ou duas para registrar os eventos dos últimos dias.

  Este é realmente um lugar suntuoso. É um apartamento de cobertura, do qual nós podemos ver a maior parte de Los Angeles -- que é o motivo pelo qual estamos usando-o como posto de comando. Mas o luxo é inacreditável: lençóis de seda; colchas de cama de pele genuínas; louças de banheiro banhadas a ouro; Uma prateleira com uma dispensa cheia de bourbon, scotch, e vodka em cada quarto; e enormes fotografias pornográficas nas paredes.

  O apartamento pertencia a um tal de Jerry Siegelbaum, agente empresarial para a União local de Empregados Municipais -- e a estrela principal das fotografias imundas nas paredes. Parece que ele preferia as meninas loiras, de tipo Ariano, embora uma de suas parceiras em uma das fotos seja uma preta, e ele está com um menino jovem em outra. Que maravilhoso representante dos trabalhadores ele era! Eu espero que alguém o retire do corredor do lado de fora logo; não há nenhum ar condicionado desde segunda-feira, e ele já está começando a cheirar muito mal.

  Esta enorme cidade  apresenta um aspecto diferente agora, em comparação com a última vez que eu tive uma visão geral dela à noite. Os rastros das luzes que desenham todas as ruas principais se foram. Porém, a escuridão geral só está sendo quebrada por centenas de luzes de tiros aleatóriamente disparados pela cidade. Eu sei que há milhares de veículos se movendo lá embaixo, mas eles estão dirigindo com as luzes apagadas, para não serem atingidos por tiros.

  Nos últimos quatro dias podia-se ouvir o ruído praticamente contínuo de sirenes da polícia, ambulâncias e veículos de emergência misturando-se com o som de tiros de artilharia, explosões e ruídos de helicópteros. Hoje à noite há somente o som de tiros, e não muitos. Parece que a batalha aqui alcançou uma fase decisiva.

  Às duas da manhã de segunda-feira, mais de 60 de nossas unidades de combate atacaram simultaneamente ao longo da área de Los Angeles, enquanto centenas de outras unidades atacaram alvos por todo o país, do Canadá ao México e de costa a costa. Eu ainda não soube completamente do que nós realizamos em outros lugares, porque o Sistema colocou uma censura total em todas as mídias de notícias -- àquelas que nós ainda não nos apossamos -- e eu não tive nenhuma chance ainda de falar com qualquer um de nossos membros que entraram em contato com o Comando Revolucionário. Mas aqui em Los Angeles nós realizamos tudo surpreendentemente bem.

  Nossa ofensiva inicial cortou toda a água e energia elétrica na área metropolitana, tirou de circulação os aeroportos principais, e fez todas as auto-estradas principais intransitáveis. Nós detonamos todas as centrais telefônicas e explodimos todos os depósitos de gasolina. A área do porto esteve numa quase incessante massa de chamas durante quatro dias.

  Nós capturamos 15 delegacias de polícia pelo menos. Na maioria delas nós só retiramos as armas, destruímos seus equipamentos de comunicações e quaisquer veículos que não estivessem em serviço no momento, e então os expulsamos. Mas aparentemente nosso pessoal ainda estão em vários edifícios policiais e os estão usando como postos de comando locais.

  No princípio os policiais e os bombeiros estavam correndo por todos os lados como galinhas com as cabeças cortadas -- sirenes e luzes de holofotes em todos lugares. Porém, antes da tarde de segunda-feira, as comunicações tinham sido tão danificadas e havia tantos incêndios e outras emergências que a polícia e o corpo de bombeiros estavam sendo muito mais seletivos em suas intervenções. Em muitas áreas nossas equipes puderam fazer seu trabalho praticamente sem interferência. Agora, claro, a maioria dos veículos de emergência e da polícia estão sem combustível e não podem se mover. E os que ainda têm gasolina parecem estar no fim do tanque.

  A chave inteira para neutralizar a polícia -- e para todo o resto, pra falar a verdade -- foi nosso trabalho dentro do exército. Era claro a todo mundo já na tarde de segunda-feira que algo grande estava acontecendo dentro do estabelecimento militar. Em primeiro lugar, diferente das tropas e tanques que vigiavam centrais elétricas, transmissores de TV, dessa vez -- e como sempre -- nenhuma unidade militar foi lançada contra nós. Por outro lado, havia sinais óbvios de conflito armado dentro de todas as bases militares na área.

  Nós podíamos ver e podíamos ouvir caças e bombardeiros sendo abatidos em cima da cidade, mas eles não estavam nos atacando -- não diretamente. Eles estavam metralhando e bombardeando dúzias de arsenais da Guarda Nacional da Califórnia na área metropolitana. Esses jatos eram aparentemente de El Toro, uma base aérea naval ao sul daqui. Depois nós vimos várias batalhas no céu de Los Angeles e ouvimos que o Acampamento Pendleton, uma grande base de fuzileiros navais a aproximadamente 70 milhas sudeste daqui, estava sendo atingida por pesados bombardeios da Base da força aérea Edwards. No geral, era um cenário extremamente confuso para todo mundo que estava vendo.

  Mas na segunda-feira a noite, por casualidade, eu me encontrei com Henry, entre outros, e ele explicou-me a situação militar. Bom e velho Henry -- como estou contente em vê-lo novamente!

  Nós nos encontramos no edifício de transmissão da KNX, onde eu estava ajudando nossa equipe de transmissão a fazer a estação voltar ao ar, depois que nos apossamos dela. A propósito, isso é o que eu tenho feito durante quatro dias: consertado transmissores danificados, freqüências de transmissão inconstantes, e improvisando equipamento. Nós temos agora uma estação FM e duas estações AM no ar, todas operando com a ajuda de geradores de emergência. Em todos os três casos nós cortamos os cabos dos estúdios e instalamos nossas equipes de transmissão diretamente nos locais de transmissão.

  O Henry chegou cantando os pneus na KNX em um jipe, usando um uniforme do Exército norte-americano com uma insignia de coronel e acompanhado por três soldados que carregavam metralhadoras e mísseis anti-tanque. Ele estava trazendo o texto para a transmissão -- um texto dirigido principalmente ao pessoal militar.

  Assim que eu terminei de conectar nosso microfone e equipamento de áudio na entrada do transmissor, Henry e eu fomos para outro lado enquanto a mensagem dele estava sendo transmitida no ar por nosso locutor. Consistia em um apelo para que todos os militares Brancos que ainda não tivessem feito isso a se unirem a nossa revolução, junto com uma advertência para aqueles que não atenderem o apelo. A mensagem foi muito bem projetada, e eu estou seguro que o seu efeito no exército e nos ouvintes civis foi poderoso.

  Henry  havia sido encarregado do esforço de recrutamento inteiro da Organização nas forças armadas durante um ano, e ele tem concentrado seus esforços na Costa Oeste desde que foi transferido para cá em março passado. A história que ele contou foi grande, mas,  junto com o que eu soube desde então, sua essência era esta:

   Nós temos recrutado dentro do exército em dois níveis desde que a Organização foi formada. No Nível mais baixo nós operamos semi-abertamente antes de setembro de 1991 e clandestinamente depois. Isso envolveu a difusão de nossa propaganda entre o pessoal alistado e não-alistados, principalmente de pessoa para pessoa. Mas, Henry me disse, nós também temos recrutado nos níveis mais altos, no mais absoluto segredo.

  A estratégia do Comando revolucionário dependeu de nosso sucesso em ganhar o apoio de vários chefes militares de altos cargos, e na segunda-feira nós começamos a jogar com esse trunfo escondido. É por isso que as forças armadas não foram usadas contra nós e também porque várias unidades militares têm atirado e bombardeado umas contra as outras nos últimos quatro dias.

  O conflito dentro do exército começou com unidades comandadas por nossos simpatizantes em um lado e unidades leais ao Sistema (de longe a maioria) no outro lado. Porém, outro aspecto para o conflito foi desenvolvido e obscureceu o primeiro: Os pretos contra os brancos.

  As unidades militares comandadas por oficiais a favor da Organização começaram a desarmar todos os militares pretos assim que nós lançamos nosso ataque na segunda-feira de manhã. A desculpa que eles usaram foi  que militares pretos tinham lançado um motim em outras unidades e que as ordens vindas dos mais alto conselho era para desarmar todos os pretos para prevenir a expansão do motim. Geralmente, membros Brancos das forças armadas estavam sempre prontos e dispostos a acreditar no que lhes era ordenado, e não precisou ser dito duas vezes para que virassem suas armas contra os Pretos em suas unidades. Os poucos cujas predisposições liberais lhes fizeram questionar esta ordem foram executados naquele mesmo lugar.

  Em outras unidades o pessoal não-alistado na revolução começou a atirar em qualquer Preto que vissem em um uniforme e então desertaram para unidades comandadas por nossos simpatizantes. Os Pretos, naturalmente, reagiram de tal modo que fizeram a história sobre o motim Preto se tornar realidade. Até mesmo nas unidades comandadas por oficiais pró-Sistema, pesados combates entre Pretos e Brancos irromperam.

  E, pelo fato de que algumas destas unidades são quase até a metade compostas por pretos, a luta foi longa e sangrenta. O resultado foi que, embora as unidades comandadas inicialmente por nossos simpatizantes fossem equivalentes apenas a 5% das unidades à favor do Sistema, a maioria delas ficou paralisada por causa de lutas internas entre Pretos e Brancos. E agora muitos dos Brancos estão entrando em números crescentes para nossas unidades por causa disto.

  Nossas transmissões de rádio tiveram um grande papel nesse processo também. Nós exageramos sobre nossa própria força, claro, e dissemos para os membros das forças armadas Brancos que quisessem se unir a nossas unidades aonde se apresentarem. E ajudar a convencê-los -- assim como manter os pretos assustados e fazendo o que estavam fazendo -- nós transformamos um de nossos transmissores em uma falsa estação de "Soul" e "Rap" e começamos a transmitir uma chamada para uma revolução preta, dizendo para os pretos atirarem nos oficiais Brancos antes que eles pudessem desarmá-los.

  As únicas unidades militares na área de Los Angeles capazes de oferecer alguma oposição a nós tem sido alguns caças aéreos e bombardeiros -- e a base aérea da Marinha, El Toro. Eles têm atacado unidades militares que acreditam estar vindo se unir a nós. Mas, de acordo com Henry, eles têm feito muito mais danos às forças pró-Sistema do que as nossas.
 
  Henry riu quando explicou para mim que a Organização não tinha conseguido fazer muito progresso em seu recrutamento na Guarda Nacional da Califórnia, para poder contar com qualquer unidade da Guarda se unindo a nós. Assim a Organização seqüestrou o chefe local da Guarda ,o general Howell, logo antes do ataque na segunda-feira de manhã, só como uma medida preventiva.

  Quando o Sistema não conseguiu localizar Howell, eles pensaram que ele tivesse se unido a nós. Seus medos foram inevitavelmente confirmados quando ouviram que ele havia deixado apressadamente sua casa com três estranhos depois da meia noite de segunda-feira, menos de uma hora antes da revolução começar. De qualquer maneira, a suspeita pegou, e assim eles ordenaram que todos os arsenais e depósitos da Guarda Nacional  fossem bombardeados por  unidades aéreas leais na segunda-feira a tarde.
 
  E no Campo de Pendleton nós não estávamos ganhando, até que o Sistema, apavorado, ordenou os bombardeiros. Eu estou certo de que esse movimento é que inclinou as coisas em nosso favor. Ainda há lutas pesadas na área de Pendleton, mas nós aparentemente estamos no controle lá agora.

  Eu não sei de qual base militar veio a coluna de tanques que neutralizou a principal sede da Polícia de Los Angeles para nós hoje, mas eles foram certamente uma dádiva de Deus. Nós nunca poderíamos ter feito isto sem eles.
 
  Desde o princípio, a polícia de Los Angeles foi nossa única oposição realmente organizada. As forças policiais menores em jurisdições vizinhas não foram particularmente um problema. Algumas nós tiramos de ação instantaneamente; outras se renderam após alguma resistência. Mas os mais de 10.000 homens da L.A.P.D (polícia de Los Angeles) estavam até algumas horas atrás em ação contra nós, e a luta estava muito difícil. Nós tivemos pelo menos 100 membros mortos no últimos quatro dias -- entre 15 a 20% de nossa força de combate local.

  Eu não sei por que nós falhamos em fazer a mesma coisa com a polícia, o que nós fizemos com o exército. Talvez tenha sido em parte por uma falta de planejamento por nossa parte, e o recrutamento militar tinha sido determinado de ser de muito mais alta prioridade do que o recrutamento policial. Em todo caso, a sede principal da polícia aqui se tornou imediatamente o centro de resistência contra-revolucionária.

  Os policiais de Los Angeles foram reforçados pelas unidades de alguns xerifes do município e até mesmo por algumas unidades de patrulha, e eles transformaram a sede principal em uma fortaleza inpenetrável que reagia a qualquer coisa que pudéssemos fazer contra eles. Na realidade, era morte quase certa para qualquer um de nós  se aventurar dentro da área de alguns quarteirões do lugar. Eles tinham um grande estoque de combustível, mais de mil veículos, e energia de emergência para seus equipamentos de comunicação, e eles sabiam sobre nossas posições por causa de um grande fator.

  Usando helicópteros para reconhecimento, eles definiram as posições de vários dos nossos pontos estratégicos e os edifícios que nós tínhamos capturado, e eles enviaram comboios que envolviam o máximo de veículos que pudessem e em torno de 200-300 homens. Nossa demolição de praticamente todo viaduto de rodovia tinha limitado a mobilidade deles por uma grande extensão, mas os seus observadores aéreos puderam guiá-los entre muitos obstáculos ao redor.

  Nós nos esforçamos para proteger certo pontos realmente vitais -- inclusive as estações de rádio que tomamos posse -- só tendo equipes com metralhadoras cobrindo as avenidas próximas. Felizmente, os policiais tinham só alguns veículos blindados, porque a maioria de nossos camaradas não tinha nenhuma arma capaz de lidar com carros blindados. Só foi hoje que aquelas armas anti-tanque ficaram disponíveis a nossos times de combate.

  Se os policiais de Los Angeles tivessem conseguido se unir com qualquer unidade militar que ainda permanecesse leal ao Sistema, teria sido o fim pra nós. Felizmente, uma dúzia de velhos M60 de uma unidade que tinha vindo para o nosso lado os pegou primeiro. Eles caíram direto em cima dos obstáculos de concreto na estrada que a polícia tinha montado ao redor de suas sedes, perfuraram o edifício com obuses e bombas incendiárias, e incendiaram centenas de veículos policiais na área com tiros de metralhadora.
 
  As comunicações e energia dos policiais foram cortadas, e o edifício deles estava em chamas em diversos lugares. Eles tiveram que evacuar o edifício, e nós demos diversos tiros de morteiro 81-mm nos estacionamentos vizinhos e ruas, até que a área ficou insustentável para eles. O lugar está deserto agora e continua queimando. A maioria dos policiais parece ter voltado para suas casas e vestido suas roupas civis.

  Agora que a maioria da resistência organizada contra nós aqui foi neutralizada, tudo dependerá de conseguirmos continuar com essa área sob nosso controle antes que unidades militares de outras partes do país sejam enviadas para cá. Eu não entendo por que isso ainda não aconteceu.

  Eu fui designado somente a algumas horas atrás para me apresentar pela manhã a um grupo de nossos técnicos que terão a tarefa de planejar os detalhes para restabelecer um pouco de energia elétrica e água na área, as rotas para o tráfego de veículos, e localizar e assegurar todos os restos de gasolina e diesel. Parece mais um trabalho para um engenheiro civil que para mim.

  Também soa um pouco prematuro, mas é encorajador saber que o Comando Revolucionário parece estar confiante sobre o futuro. Talvez eu descubra mais sobre a situação geral amanhã.
 

10 de julho de 1993: Bem, bem, bem! Coisas realmente têm acontecido - algumas coisas boas e algumas coisas ruins, mas principalmente boas.

  A situação do exército e da polícia parece estar sob controle por aqui - e, na realidade,  na maioria da Costa Oeste, embora ainda haja muitas batalhas ao redor de São Francisco e em algumas outras áreas.

  E ainda há alguns grupos armados aqui -- alguns policiais e alguns militares -- perambulando por aí e causando alguns empecilhos. Mas nós estamos protegendo todas as bases e pistas de pouso militares aqui e reuniremos o pessoal perdido em um dia ou dois. A ordem agora é atirar em qualquer um portando armas a menos que ele esteja usando uma de nossas braçadeiras.

  Isso é um alívio bem-vindo, comparando com alguns dias atrás, quando nós éramos os únicos sujeitos a tomar tiro por aqui. Depois de anos em esconderijos, se escondendo por debaixo de disfarces, e morrendo de medo toda vez que víssemos um policial, é um sentimento maravilhoso poder estar do lado de fora - e sermos os únicos com armas.

 O grande problema aqui se tornou um problema civil. A população civil foi pega completamente de surpresa. De fato, não podemos culpá-la, e eu estou surpreso com a forma com que ela se comportou -- mais ou menos -- como ela tem feito. Afinal de contas, ela esteve sem energia elétrica e sem abastecimento de água durante uma semana. Uma porção muito significativa dela também ficou sem comida durante vários dias.

  Nos primeiros dois dias -- segunda e terça-feira -- a população civil fêz o que esperavamos que fizesse. Centenas de milhares deles aglomeraram-se em seus carros sobre as auto-estradas. Eles não puderam ir muito longe, claro, porque nós tínhamos explodido várias intersecções fundamentais, mas eles conseguiram criar o maior e mais monumental engarrafamentojamais imaginado,  terminando a tarefa para nós de tornar quase impossível para a polícia trafegar pela cidade.

  Antes da tarde de terça-feira a maioria da população Branca já tinha voltado às casas -- ou, pelo menos, para seus próprios bairros -- muitos deles abandonando os carros nas estradas e caminhando até em casa. Eles tinham percebido, primeiramente, que não havia nenhum modo possível de deixar a área de Los Angeles através de automóveis; segundo, que eles não podiam comprar gasolina, porque as bombas elétricas nos postos de reabastecimento não estavam funcionando; terceiro, que a maioria das lojas e negócios estavam fechados; e quarto, que algo realmente grande estava acontecendo. Eles ficaram em casa, mantendo os rádios ligados, preocupados. Havia muito pouco crime ou violência, exceto nos bairros Pretos, onde revoltas, saques, e incêndios começaram cedo na tarde de segunda-feira e cresceram progressivamente, ficando mais intensos e difundidos.
 
  Porém, na manhã de quinta-feira havia uma grande quantidade de saques em bairros Brancos, principalmente em supermercados. Algumas pessoas não tinham comida já a mais de 48 horas e estavam agindo em desespero em vez de vandalismo.

  Não era ainda noite na quinta-feira quando nós começamos a sentir que nós tinhamos vencido a polícia, e nós não fizemos nada que desencorajasse a desordem civil. Quanto mais deles haviam nas ruas,  famintos e desesperados,  quebrando janelas de lojas e roubando comida, procurando água potável e baterias carregadas para seus os rádios, entrando em brigas com outras pessoas que procuravam as mesmas coisas, menos tempo a polícia tinha para nós. Essa foi, claro,  a idéia principal por atrás de nosso plano de cortar a energia, água, e transporte.

  Se a polícia só tivesse a gente para se preocupar, nós não teríamos chance de ganhar. Mas eles não podiam controlar a gente e uma desordem geral da ordem pública ao mesmo tempo.

  Porém, agora nós temos a responsabilidade de restabelecer a ordem, e vai ser muito complicado. As pessoas estão absolutamente fora de sí, com medo e pânico. Elas estão se comportando de uma maneira completamente irracional, e infelizmente, um grande número de vidas serão sacrificadas antes de colocarmos as coisas sob controle. Eu temo, em parte, que a fome e o cansaço vão fazer isto para nós, porque nossa força de trabalho e outros recursos materiais são completamente inadequados para a tarefa.

  Hoje eu saí com um time de recuperação de combustível, e eu tive uma visão próxima do nosso problema civil. Realmente me chocou. Nós estávamos dirigindo um caminhão tanque de gasolina grande, com uma escolta de jipe armada, de posto de gasolina a posto de gasolina na área de Pasadena, bombeando a gasolina para fora dos tanques de cada posto em nosso caminhão. Há combustível suficiente na área para satisfazer nossas próprias necessidades por algum tempo, mas os civis vão ter que passar sem usar seus carros por algum tempo.

  Pasadena era, há alguns anos atrás, majoritamente Branca, mas ficou agora predominantemente Negra. Nos bairros Pretos, sempre que nos encontramos com pretos perto de um posto de gasolina, nós abrimos fogo neles para mantê-los à distância. Nas áreas Brancas, nós éramos cercados por brancos famintos que nos imploravam por comida -- a qual, claro, nós não tinhamos pra dar.

  É uma dádiva eles não terem nenhuma arma de fogo, ou nós estaríamos agora em um um aperto infernal. Obrigado, Senador Cohen!

  Ops! Não tenho mais tempo para escrever agora - tenho que ir para uma reunião. Nós devemos receber lá um relatório sobre a situação nacional.



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