O Diário de Turner

Capítulo XIII



21 de março de 1993: Hoje é um novo começo. É uma coincidência que seja o primeiro dia da primavera. Para mim mais parece como um retorno da morte -- 470 dias vivendo como morto. Estar de volta com Katherine, e com meus outros camaradas, me faz capaz de retomar novamente a luta depois de tanto tempo perdido -- esse pensamento me enche com uma alegria indescritível.

  Tanta coisa aconteceu desde minha última anotação neste diário (como estou contente de que Katherine pôde salvá-lo para mim!) que é difícil decidir como escrever tudo aqui. Bem, as primeiras coisas primeiro.

  Era aproximadamente quatro horas da manhã de domingo, e estava escuro. Nós estávamos todos dormindo profundamente. A primeira coisa que eu me lembro é de Katherine me sacudindo o ombro, enquanto tentava me acordar. Eu podia ouvir um zumbido insistente no fundo, que, em minha condição de semi-acordado, assumi que era nosso despertador de quarto.

" Seguramente, não está na hora de levantar", eu resmunguei.

"É o alarme de emergência do térreo" Katherine sussurrou urgentemente. "Alguém está do lado de fora do edifício".

  Isso me despertou imediatamente, mas antes que eu pudesse até mesmo colocar meus pés no chão, houve um estrondo alto, enquanto algo soltou um monte de faíscas entrando violentamente através da janela de cima do quarto, que estava bem fechada. Quase imediatamente o quarto se encheu com uma nuvem de gás de efeito moral, e eu estava ofegando em agonia.

  Os próximos minutos que se seguiram são um pouco nebulosos em minha memória. De alguma maneira todos nós conseguimos colocar nossas máscaras de gás sem acender nenhuma luz. Bill e eu corremos escada abaixo, enquanto deixamos Katherine e Carol controlando as janelas do andar superior. Felizmente, ninguém ainda tinha tentado entrar no edifício, mas quando Bill e eu alcancamos o fim dos degraus, pudemos ouvir alguém lá fora com um megafone que ordenava que fôssemos pra fora com nossas mãos levantadas.

  Eu dei uma olhada rápida por nosso olho-mágico. A escuridão de fora tinha se transformado em dia devido à dúzias de holofotes, todos apontados para o nosso edifício. O clarão me impediu de ver qualquer coisa além das luzes, mas estava bem claro para mim que havia centenas de soldados e policiais, muito bem equipados, lá fora.

  Era obviamente fútil tentar atirar para escapar, mas nós tentamos uma resistência de qualquer maneira -- meia dúzia de tiros rápidos cada um --  do andar superior ao inferior, nas janelas do térreo, na frente e trás, só para desencorajar o pessoal de fora a tentar forçar uma entrada rápida no edifício. Depois disso, todos nós ficamos longe das janelas e portas que foram imediatamente atingidas com uma chuva tiros de volta, e apenas nos concentramos em carregar o máximo que podíamos de nosso equipamento essencial pra fora pelo nosso túnel de fuga. O bloco de cimento de que eram feitas as paredes da garagem nos ofereciam proteção das armas pequenas que atiravam contra nós de todas as direções.

  Bill, Katherine e Carol carregaram nossos pertences abaixo pelo túnel longo e escuro, enquanto eu fiquei na loja e juntei para eles as coisas que eu pensei que nós devíamos tentar salvar. Em três quartos de hora frenéticos e exaustivos, eles juntaram uma pequena montanha de armamentos e equipamentos de comunicação pelo fosso de drenagem, na outra saída do túnel.

  Embora os três fizeram a maior parte do trabalho de transporte, pelo menos eles não corriam perigo de levar um tiro. Eu tive balas que raspavam ao redor de minhas orelhas o tempo todo, e eu fui ferido pelo menos uma dúzia de vezes por lascas de concreto lançadas das paredes por causa das balas que ricocheteavam. Eu ainda não entendo como eu consegui não ser morto. Eu ainda fui capaz de conseguir dar alguns tiros por detrás da porta nos nossos agressores a cada cinco minutos ou coisa assim, só para dar-lhes cobertura.

  Finalmente nós tínhamos conseguido pegar todas as nossas armas pequenas e munição, mais ou menos metade de nossos explosivos de tamanho médio e as armas mais pesadas, e todas as unidades de comunicações completas. As ferramentas de Bill foram salvas, porque ele tem o bom hábito de mantê-las juntas em uma caixa de ferramentas, mas nós abandonamos a maioria de meu equipamento de teste, porque ele estava espalhado por toda a loja.

  Nós nos atiramos rapidamente no túnel cheio de graxa e decidimos que Bill e as meninas roubariam um veículo e carregariam nossas coisas nele enquanto eu ficaria na loja preparando uma carga de pólvora de demolição que soterraria a entrada de nosso túnel de fuga. Eu lhes daria 30 minutos, então eu acenderia o pavio e faria minha própria fuga.

  Katherine fugiu correndo e subiu rapidamente para o piso de cima, onde ela agarrou alguns de nossos artigos pessoais -- inclusive meu diário -- e então eu a empurrei de volta pro túnel com os outros pela última vez.
 
  As portas do piso de baixo e as tábuas em cima das janelas estavam destruídas pela metade agora, e tanta luz estava entrando na loja vinda dos holofotes que qualquer movimento estava ficando extremamente perigoso. Trabalhando nervoso e com pressa, eu juntei uma carga de 20 libras de pólvora e de tritonal no túnel de graxa, quase acima da entrada do túnel, e preparei o dispositivo.
 
  Então eu rastejei ao longo do chão, rumo à parede onde cerca de 100 outras libras de tritonal estavam empilhadas em recipientes pequenos. Eu pretendi correr um  fio daquele explosivo para a carga de pólvora no túnel de graxa, de forma que a loja inteira fosse pelos ares em uma única explosão, enquanto cobriria tudo completamente com destroços. Os policiais levariam alguns dias ainda para escavar pelos escombros e descobrir que tínhamos escapado.

  Mas eu nunca cheguei a fazer isto até a parede. De alguma maneira -- eu ainda não entendi exatamente como isso aconteceu -- a carga de pólvora no túnel de graxa explodiu antes da hora. Talvez uma bala ricocheteou e atingiu o detonador. Ou talvez faíscas de uma das granadas de gás lacrimogêneo que ainda estavam sendo jogadas no lugar acenderam o pavio. De qualquer maneira, o choque me atingiu feio -- e quase me matou. Eu recuperei minha consciência em uma mesa de operação em um quarto de emergência de hospital.

  Os dias seguintes foram extremamente dolorosos. Eu estremeço ao lembrar. Eu fui levado diretamente do quarto de emergência para uma cela de interrogação no subsolo do FBI, que foi apenas parcialmente limpo do entulho que havíamos feito com nossa bomba sete semanas antes.

  Embora eu ainda estivesse desorientado e com dores extremas de minhas feridas, fui conduzido de forma muito brutal. Meus pulsos foram algemados firmemente atrás de mim, e eu fui chutado e esmurrado sempre que eu demorei ou não respondi rápido bastante a uma ordem. Fui forçado a ficar de pé no meio da cela enquanto meia dúzia de agentes do FBI gritavam perguntas a mim, de todos os lados,e eu quase não podia fazer mais nada além de resmunguar coisas incoerentes, até mesmo se eu quisesse cooperar com eles.

  Porém, até mesmo em minha agonia eu senti uma onda de tranquilidade quando eu percebi pelas perguntas de meus interrogadores que os outros tinham escapado sãos e salvos. Inúmeras vezes os homens ao meu redor gritavam as mesmas perguntas: "Onde estão os outros? Quantos estavam no edifício com você? Como eles escaparam?" Aparentemente, a carga de pólvora no túnel de graxa tinha soterrado a entrada do túnel satisfatoriamente. As perguntas eram intercaladas com tapas constantes e pontapés, até que eu caí finalmente ao chão, inconsciente de novo.

  Quando eu voltei a mim, eu ainda estava onde eu tinha caído, no chão de concreto. A luz estava ligada, e ninguém mais estava no quarto, e eu podia ouvir o barulho de britadeiras pneumáticas e outros sons feitos por um técnico que trabalhava no corredor do lado de fora da cela. Eu estava dolorido por inteiro, com as algemas que me causavam uma dor particularmente agonizante, mas minha mente estava bem clara.

  Meu primeiro pensamento foi de que eu já não tinha mais minha cápsula de veneno no pescoço. A polícia secreta, claro, deve ter tomado meu pequeno colar assim que acharam meu corpo inconsciente nos destroços da garagem. Eu me amaldiçoei por ter falhado em me precaver de ter levado a cápsula à minha boca antes da explosão. Provavelmente não teria sido achada lá, e eu poderia tê-la mordido assim que eu acordasse no hospital. Nos dias que virão, este peso na conciência ocorrerá periodicamente de novo e de novo todos os dias.

  Meu segundo pensamento também foi o de pesar e auto-recriminação. Eu fui atormentado por uma suspeita tão forte que quase chegou a certeza, de que minha visita impensada para Elsa dois dias antes era responsável pelo que tinha acontecido. Evidentemente, alguém do grupo de Elsa tinha me seguido até em casa e então tinha informado a polícia sobre mim. Esta suspeita foi depois indiretamente confirmada por meus capturadores.

  Eu fiquei sozinho com minhas dores e pensamentos sombrios durante alguns minutos apenas, antes da minha segunda sessão de interrogação começar. Nesse momento dois agentes do FBI entraram em minha cela, seguidos por um médico e três outros homens, dois dos últimos três sendo pretos grandes e parecendo musculosos . O terceiro homem era uma figura corcunda e de cabelos brancos de cerca de 70 anos. Um pequeno sorriso sórdido brilhou nos cantos de sua boca grossa -- ele olhando ocasionalmente ao redor, entre sorrisos e olhadelas maliciosas, revelando as obturações de ouro em seus dentes manchados de tabaco.

  Depois que o médico me analisou rapidamente, declarou que eu estava razoavelmente apto, e então saiu, os dois agentes do FBI me arrastaram pelos pés e então assumiram suas posições perto da porta. A sessão passou para o indivíduo sinistro com os dentes de ouro.

   Falando com um grosso sotaque hebraico e uma voz moderada, quase professoral, ele se apresentou a mim como Coronel Saul Rubin, da Inteligência do Exército Israelense. Antes de que eu pudesse perguntar o que um representante de um governo estrangeiro queria me interrogar, Rubin explicou: "Desde que suas atividades racistas estão em violação da Convenção de Genocídio Internacional, Sr. Turner, você será julgado por um tribunal internacional, composto por representantes do seu país e do meu. Mas primeiro nós precisamos saber um pouco mais de você, de forma que nós possamos trazer seus colegas criminosos à justiça ao mesmo tempo"

  " Eu entendo que você não foi muito cooperativo ontem à noite. Deixe-me prevení-lo que será muito duro pra você se não responder minhas perguntas. Eu tive muita experiência durante os últimos 45 anos extraindo informação de pessoas que não desejaram cooperar comigo. No fim todos eles me contaram tudo que eu quis saber, tanto árabes quanto alemães, mas foi uma experiência muito desagradável para aqueles que eram obstinados".

  Então, depois de uma pausa breve: "Ah sim, alguns desses alemães, em 1945 e 1946 -- particularmente os que pertenciam a SS - eram absolutamente obstinados".
  A lembrança aparentemente trouxe outro sorriso horroroso à face de Rubin, e eu não pude esconder meu pavor. Eu me lembrei das fotografias horríveis que um de nossos colegas que era um oficial da inteligência do Exército tinha me mostrado anos atrás de prisioneiros alemães que tinham tido seus olhos arrancados fora, seus dentes arrancados, seus dedos cortados, e seus testículos esmagados por interrogantes sádicos, muitos usando uniformes do Exército Norte-Americano, antes de serem julgados e executados por tribunais do exército como "criminosos de guerra."

  A única coisa que eu queria naquele momento era poder quebrar essa face judaica na minha frente com toda a força dos meus punhos, mas minhas algemas não me permitiriam esse prazer. Eu me conformei em cuspir na face de Rubin e chutar um pontapé simultaneamente no saco dele. Infelizmente, meu corpo e músculos doloridos arruinaram minha pontaria, e meu pontapé só pegou a coxa de Rubin, mandando-o para trás apenas alguns passos.

  Então os dois pretos me agarraram. Sob as ordens de Rubin, eles começaram a me bater violentamente. Quando eles terminaram, todo meu corpo tremia e queimava de dor, e eu estava me contorcendo no chão, gemendo.

  As sessões de interrogação subseqüentes foram piores -- muito piores. Porque uma tentativa "de espetáculo público" foi planejada para mim, presumivelmente à mesma maneira feita com Adolf Eichmann, Rubin evitou arrancar meus olhos -- e cortar meus dedos --  que teriam me desfigurado, mas as coisas que ele fez foram extremamente dolorosas. (Nota para o leitor: Adolf Eichmann era um funcionário alemão de nível médio durante a Segunda Guerra Mundial. Quinze anos depois da guerra, em 39 ANE, ele foi seqüestrado na América do Sul por Judeus, levado para Israel, e foi a figura central em uma elaborada e organizada campanha de propaganda de dois anos para evocar condolências do mundo não-judeu para Israel, o único refúgio para os "judeus perseguidos". Depois de torturas diabólicas, Eichmann foi exibido em uma gaiola de à prova de som durante um espetáculo de quatro meses na qual ele foi condenado a morte por "crimes contra o povo judeu".)

  Por dias, durante um tempo, eu fiquei completamente fora de mim, e como tinha predito Rubin, eu lhe contei tudo o que ele quis saber.

  Nenhum ser humano poderia ter feito o contrário.

  Durante as sessões de tortura os dois agentes do FBI que sempre estavam presentes como espectadores as vezes ficavam um pouco pálidos -- e quando Rubin mandou os dois assistentes Pretos empurrarem um bastão longo e áspero dentro do meu reto, de forma que eu gritasse e tivesse convulsões como um porco no espeto, alguém olhou como se estivesse ficando com enjôo --  mas eles nunca levantaram nenhuma objeção. Eu imagino como deve ter sido parecido depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando os oficiais americanos de ascendência alemã calmamente assistiam o que os torturadores judeus faziam com seus irmãos raciais que tinham estado no Exército Alemão e igualmente não tinham visto nada de exepcional quando viram soldados G.I. negros estuprando e brutalizando as meninas alemãs. Será que é porque eles foram tão lavados cerebralmente pelos judeus que eles odeiam a própria raça deles, ou é porque eles são canalhas insensíveis que fariam tudo que lhes fosse dito contanto que eles mantivessem seus salários?

  Apesar de Rubin conhecer perfeitamente técnicas dolorosas, me convenci totalmente que as técnicas de interrogação da Organização dão muito mais resultado que as do Sistema. Nós somos científicos, enquanto que o Sistema é meramente brutal. Embora Rubin tenha quebrado minha resistência e obtido respostas para as perguntas dele, ele felizmente não perguntou muitas das perguntas essenciais.

  Quando ele tinha terminado finalmente comigo, depois de um pesadelo de quase um mês, eu havia lhe contado os nomes da maioria dos sócios da Organização que eu pude lembrar, os locais exatos de seus esconderijos, e quem estava envolvido em várias operações contra o Sistema. Eu tinha descrito em detalhes como foram as preparações para o atentado ao prédio do FBI  e meu papel na construção do morteiro que atacou o Capitólio. E, claro que eu expliquei exatamente como os meus outros parceiros de unidade tinham escapado da captura.

  Todas estas revelações certamente causaram problemas para a Organização. Mas desde que eles puderam se antecipar exatamente o que a polícia política conseguiria extrair de mim, eles puderam anular qualquer dano potencial. Isso principalmente significou abandonar vários esconderijos perfeitamente bons e estabelecer outros novos apressadamente.

  Mas a técnica de interrogação de Rubin extraiu só informação na forma de respostas diretas a perguntas. Ele não me perguntou nada sobre nosso sistema de comunicações, e portanto, ele não descobriu nada sobre isto.

  (Como eu soube depois, nosso legais dentro do FBI mantiveram a Organização informada sobre que tipo de informações minha interrogação estava rendendo, assim nós retivemos a confiança na segurança de nossas comunicações de rádio.)

  Ele também não descobriu nada sobre a Ordem ou sobre nossa filosofia ou metas de longo alcance, cujo conhecimento poderia ter ajudado o Sistema a entender nossa estratégia. No final, tudo o que Rubin obteve de mim  foi somente de natureza tática. Eu acredito que a razão para isto foi a suposição arrogante do Sistema de que a tarefa de aniquilar a Organização seria uma questão de semanas. Nós fomos considerados como um problema principal mas não como um perigo mortal.

  Depois que meu período de interrogação terminou, eu fui mantido no FBI durante outras três semanas, aparentemente na previsão deles de ter à mão alguém para identificar vários outros membros da Organização que pudessem ser presos com base nas informações que eu tinha fornecido.

  Nenhum membro foi preso durante este período, e eu fui transferido finalmente à prisão especial em Fort Belvoir com quase 200 outros colegas da Organização e quase o mesmo número de nosso legais detidos.

  O governo tinha medo de nos pôr em prisões comuns por causa do perigo de que a Organização viesse nos libertar -- e também, eu suspeito, porque eles tinham medo de que nós poderíamos doutrinar outros prisioneiros Brancos. Assim todos os menbros da Organização que foram capturados foram levados para Fort Belvoir vindos de toda parte do país e mantidos em celas solitárias -- em edifícios da prisão cercados por arame farpado, tanques, torres de guarda com metralhadoras, e duas companhias da Polícia Militar Norte-Americana -- todos no centro de uma base do Exército. E lá eu passei os 14 meses que se seguiram. O que aconteceu aos planos para meu julgamento eu não sei dizer.

  Muitas pessoas consideram que a prisão solitária é um tratamento especialmente duro, mas era uma bênção para mim.

  Eu ainda estava de tal forma deprimido e com má disposição de espírito -- em parte, resultado da tortura de Rubin, em parte um senso de culpa por ter me rendido àquela tortura, e em parte por estar trancado e incapaz de participar da luta -- que eu precisei de algum tempo para voltar ao normal. E, claro que, era agradável não ter que se preocupar sobre Pretos nas celas, que teriam sido um real inferno em qualquer prisão comum.
  Ninguém que não foi sujeito ao terror e agonia pelas quais eu fui sujeito pode entender o efeito profundo e duradouro de uma tal experiência. Meu corpo curou-se completamente agora, e eu me recuperei da combinação peculiar de depressão e nervosismo com que minha interrogação me deixou, mas eu não sou o mesmo homem que eu era. Eu sou agora mais impaciente, mais sério (até mesmo sombrio, talvez), mais determinado do que nunca em seguir com nossos objetivos.E eu perdi todo o medo da morte. Eu não me tornei mais ou menos despreocupado, mas nada mais me mete medo agora.
  Eu posso ser muito mais duro do que antes e também mais duro com os outros, quando necessário. Não vou ouvir mais nenhum conservador lamentoso, "responsável" ou não, que ficar no caminho da nossa revolução quando eu estiver por perto! Eu não escutarei mais nenhuma desculpa destes colaboradores que só pensam em si, destes escravos do Sistema,  mas simplesmente vou sacar minha pistola.

  Durante todo o tempo que eu e os outros ficamos em Forte Belvoir, o sistema supunha que nós éramos incomunicáveis e não era permitido nenhum material de leitura, jornais ou coisa parecida. No entanto, nós aprendemos a nos comunicar em uma extensão limitada uns com os outros, e nós estabelecemos um canal de notícias orais do exterior por nossos guardas, que não eram completamente antipáticos.
  As notícias que todos nós queríamos ouvir, claro, eram as da guerra entre a Organização e o Sistema. Nós ficávamos especialmente animados sempre que havia notícias de uma ação bem-sucedida contra o Sistema -- uma "atrocidade", no jargão da mídia de notícias -- e ficávamos deprimidos se o período entre notícias das ações principais ficava silencioso por mais de alguns dias.

A medida que o tempo passou, notícias de ações ficaram consideravelmente menos freqüentes , e a mídia começou a predizer com maior e maior confiança a liquidação iminente das sobras da Organização e o retorno do país para o "estado normal".

 Isso nos preocupou, mas nossa preocupação era amenizada pela observação de que menos e menos prisioneiros novos estavam se juntando a nós em Fort Belvoir.

  Uma média de um por dia estava sendo trazida quando eu cheguei lá, mas aquele número tinha diminuído para menos de um por semana até agosto do ano passado.

  Então veio a notícia dos grandes ataques à bomba de Houston, de 11 e 12 de setembro de 1992. Em dois dias de extrema tensão houve 14 explosões principais que deixaram mais de 4000 mortos e a maioria das instalações industriais e de transporte de Houston queimando em chamas e destroços.

  A ação começou quando um navio completamente carregado com munições, levando bombas aéreas para Israel, foi detonado no Canal de Houston abarrotado de navios, pelas horas do amanhecer de 11 de setembro. Aquele navio levou quatro outros para o fundo do canal com ele, bloqueando-o completamente, e também ateou fogo a uma refinaria próxima enorme. Dentro de uma hora, oito outras explosões importantes tinham acontecido ao longo do canal de navios, paralisando o segundo porto mais importante da nação por mais de quatro meses.

  Cinco explosões posteriores fecharam o aeroporto de Houston, destruíram a principal estação geradora de energia da cidade, e desmoronaram dois viadutos estrategicamente situados e uma ponte, fazendo duas das auto-estradas com os tráfegos mais pesados na área intransitáveis. Houston se tornou uma área de desastre imediata, e o governo Federal se apressou a convocar milhares de soldados -- tanto para manter um público irado e apavorado sob controle quanto para agir contra a Organização.

  A ação de Houston não nos criou nenhum amigo, mas também não ajudou o governo no caso. E derrubou o boato crescente de que nossa revolução tinha sido completamente abafada.

  E, depois de Houston, foi Wilmington, depois Providence, depois Racine. As ações passaram a ser em menor quantidade que antes, mas elas passaram a ser muito, muito maiores. Ficou aparente para nós no outono passado que a revolução tinha entrado em uma fase nova e mais decisiva. Muito mais do que antes.

  Ontem à noite foi a ação mais importante para todos nós em Fort Belvoir. Logo antes meia-noite, como sempre, dois ônibus cor-de-oliva pararam na frente do portão para nossa composição da guarda na prisão. Normalmente eles trazem cerca de 60 PMs para a troca de guarda da meia-noite e levam a tropa da noite. Desta vez foi diferente.

  Minha primeira impressão de que uma fuga estava em andamento foi quando eu fui acordado pelo som de uma metralhadora que estava sendo disparada de uma das torres de guarda. Foi rapidamente silenciada por um tiro direto de um canhãode 105-mm de um dos quatro tanques em nosso pavilhão. Depois disso ouviu-se intermináveis tiros de armas pequenas e muitos gritos, e o sons de pessoas correndo. Finalmente, a porta de madeira da minha cela estourou com uma pancada forte de martelo, e eu estava livre.
 
  Eu fui um dos cerca de 150 afortunados que se apertou dentro dos dois ônibus da PM e fugimos neles. Várias dúzias de outros colegas se penduraram no exterior dos quatro tanques capturados, cujas equipes desatentas foram os primeiros alvos de nossos resgatadores. O resto teve que ir a pé, fugindo por uma chuva torrencial que evidentemente manteve os helicópteros do Exército no chão.

  No total tivemos 18 prisioneiros e quatro resgatadores mortos, e 61 prisioneiros recapturados. Mas 442 de nós -- conforme o relatório de notícias no rádio -- fugiram pelos caminhões de espera fora da base, enquanto os tanques mantiveram nossos perseguidores à distância.

   Isso não era o fim da agitação, mas é suficiente para dizer que às quatro horas desta manhã nós já tínhamos nos dispersado seguramente por mais de duas dúzias de "casas"  pré-selecionadas e seguras na área de Washington. Depois que algumas horas se passaram, me vesti com roupas de trabalho civis, foi-me dado um conjunto de identidades falsas que tinham sido cuidadosamente preparadas para mim e, levando um jornal e uma lancheira de almoço, fiz meu caminho entre os trabalhadores da manhã ao ponto de encontro em que fui designado.

  Depois de dois minutos uma picape que levava um homem e uma mulher parou no meio-fio ao meu lado. A porta abriu e eu pulei para dentro. Enquanto Bill saiu cantando pneus no trânsito, eu segurei minha amada Katherine mais uma vez em meus braços.



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